A sonda da Nasa Voyager é até agora objeto criado pelo homem a lacancar a maior distância percorrida no espaço. A espaçonave já rompeu o espaço
interestelar, o espaço entre as estrelas, e tem sido um assunto do momento.
"Nós temos sido
cautelosos porque estamos a lidar com um dos marcos mais importantes na
história da exploração espacial e da Humanidade," afirma Ed Stone,
cientista do projecto Voyager no Instituto de Tecnologia em Pasadena, no
estado americano da Califórnia. "Só agora é que temos os dados - e a
análise - que precisávamos."
O que a equipe responsável pelo projeto precisa agora é de dados sobre o plasma, gás ionizado, a mais
densa e lenta das partículas carregadas no espaço (o brilho de neón numa
montra é um exemplo de plasma). O plasma é o indicador mais importante
que distingue se a Voyager 1 está dentro da bolha solar, conhecida como
heliosfera, que é preenchida por plasma que flui na direção oposta à do
Sol, ou se está no espaço interestelar e rodeada por material expelido
pela explosão de estrelas gigantes vizinhas há milhões de anos atrás.
"Nós procuramos os
sinais previstos pelos modelos que usam os melhores dados disponíveis,
mas até agora não tínhamos medições do plasma pela Voyager 1," afirma
Stone.
A Voyager 1 encontra-se nesse momento em um lugar mais estranho do que o fundo do mar da Terra - um
local a mais de 17 mil milhões de quilômetros do Sol. Tem enviado tantos
dados inesperados que a equipa científica tem lutado com a questão de
como explicar toda a informação.
"Nunca tínhamos
alcançado o espaço interestelar até agora, é como viajar com guias
turísticos que estão incompletos," afirma Stone. "Ainda assim, a
incerteza é parte da exploração. Nós não partiríamos à descoberta se
soubéssemos exatamente o que iríamos encontrar."
As duas sondas
Voyager foram lançadas em 1977 e, entre elas, visitaram Júpiter,
Saturno, Urano e Neptuno até 1989. O instrumento de plasma da Voyager 1,
que mede a densidade, temperatura e velocidade do plasma, parou de
funcionar em 1980, logo após o seu último "flyby" planetário. Quando a
Voyager 1 detectou a pressão do espaço interestelar sobre a nossa
heliosfera em 2004, a equipa científica não dispunha do instrumento que
podia fornecer as medições mais diretas do plasma. Em vez disso,
concentraram-se no sentido do campo magnético como substituto para a
fonte do plasma. Dado que o plasma solar viaja sobre as linhas do campo
magnético que emana do Sol e o plasma interestelar viaja através das
linhas do campo magnético interestelar, esperava-se que as direções dos
campos magnéticos solares e interestelares fossem diferentes.
Em 25 de Agosto,
quando, como sabemos agora, a Voyager 1 entrou definitivamente nesta
região, todas as partículas de baixa-energia do interior desapareceram.
Algumas partículas diminuíram mais de 1000 vezes em comparação com os
valores de 2004. Os níveis de raios cósmicos galácticos saltaram para o
valor mais elevado de toda a missão. Estas seriam as mudanças esperadas
caso a Voyager 1 tivesse cruzado a heliopausa, que é a fronteira entre a
heliosfera e o espaço interestelar. No entanto, a análise subsequente
dos dados do campo magnético revelaram que embora a intensidade do campo
magnético tivesse saltado 60% neste limite, a direção tinha mudado
menos de 2 graus. Isto sugeria que a Voyager 1 não tinha deixado o campo
magnético do Sol e tinha apenas entrado numa nova região, ainda dentro
da bolha solar, que não continha partículas interiores.
"O caminho para o espaço interestelar tem sido muito mais complicado do que imaginávamos." Stone discutiu com a
equipa científica se achavam que a Voyager 1 já tinha cruzado a
heliopausa. Que nome deveriam dar à região onde se encontra a Voyager 1?
"No final, havia um
consenso geral de que a Voyager 1 estava de facto de fora, no espaço
interestelar," acrescenta Stone. "Mas esse local vem com alguns alertas -
estamos numa região mista, de transição, do espaço interestelar. Nós
não sabemos quando vamos chegar ao espaço interestelar livre da
influência da nossa bolha solar."
Então, a equipa da
Voyager 1 afirma que deixou o Sistema Solar? Não exatamente - e isso é
parte da confusão. Desde a década de 1960, a maioria dos cientistas
define o nosso Sistema Solar até à Nuvem de Oort, o local de origem dos
cometas que passam pelo Sol ao longo de enormes escalas de tempo. Esta
área é onde a gravidade das outras estrelas começa a vencer a gravidade
do Sol. A Voyager 1 demorará cerca de 300 anos até alcançar a orla
interna da Nuvem de Oort e possivelmente outros 30.000 até a cruzar
completamente. Informalmente, claro, "sistema solar" significa
normalmente o "bairro" planetário em torno do nosso Sol. Por causa desta
ambiguidade, a equipa da Voyager tem ultimamente favorecido falar sobre
o espaço interestelar, que é especificamente o espaço entre a esfera de
influência do plasma de cada estrela.
A Voyager 1, que
trabalha com uma fonte de energia finita, tem energia suficiente para
continuar a operar os instrumentos científicos dos campos magnéticos e
partículas até pelo menos 2020, quando atingir os 43 anos de operação
contínua. Nessa altura, os gestores da missão terão que começar a
desligar os instrumentos um a um de modo a conservar energia, com o
último a desligar por volta de 2025.
E para todo o sempre, a Voyager 1
continuará a orbitar o coração da nossa Via Láctea, o Sol sendo apenas
um pequeno ponto de luz entre muitos outros.


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